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terça-feira, 25 de maio de 2010

Insônia

O dia parece não querer terminar, na casa, todos já ocupam os seus quartos, o silêncio e a escuridão imperam quase todo o lar, mas um dos quartos insiste em cortar a perfeita harmonia entre a sombra e o silêncio. A porta encostada deixava escapar um friso de luz que atravessava todo o corredor e terminava na parede do mesmo, e, quase imperceptível, um barulho constante indicando que alguém permanecia acordado.

A cada passo que dava em direção a aquele quarto, o barulho, antes quase imperceptível, passava a soar como uma metralhadora sendo descarregada dentro de meus ouvidos, e aquele facho de luz já parecia holofotes apontados diretamente para os meus olhos. Resolvi passar pelos demais cômodos, sabia que por trás daquela porta o trabalho não seria fácil. Uma hora, duas, pronto! Era à hora de encarar o que habitava aquele quarto, seja lá o que fosse. Já passava das duas da madrugada e isso já me dava arrepios, a lâmpada continuava acesa, e o barulho continuava a todo vapor, precisava esperar um pouco mais... Já eram quase três da manhã, quando, de repente, a luz se apagou e se formou um perfeito silêncio, que segundos depois voltou a ser quebrado pelo mesmo barulho de antes. O trabalho precisava ser feito e esse parecia o momento certo...

Tirei meus sapatos para que não fosse notado pelos passos no chão de madeira, e passei vagarosamente pelo espaço que a porta encostada permitia, chego a bater o pé esquerdo, o que a faz abrir um pouco mais, mas nada comparado ao que poderia ter acontecido se expressasse o tamanho susto que tomei ao entrar no quarto; consegui me conter e me esconder em um dos cantos mais escuros, de onde fiquei a observar.

Era um jovem de aproximadamente vinte e três anos; fronte cansada, mas que não esboçava um bocejo sequer; olhava firmemente para a tela de um computador e, com dedos rápidos, digitava uma desanimada crônica sobre um jovem que não dormia a anos; não parecia tão feliz, alguns fios de cabelos brancos demonstravam marcas de uma vida que não condiz com sua aparente idade; parecia alguém que envelheceu muito cedo, que se deixou levar pelos “padrões” que a sociedade impôs, que sempre se preocupou com o que os outros pensavam; que não se deixou apaixonar, que se arrepende de escolhas que não fez...

Atrás da cadeira estava ela; assustadora (devia ter mais ou menos três metros de altura), impecável, nunca havia visto uma tão grande; esticava as pálpebras do garoto impedindo-o sequer de piscar os olhos. Sabia que não seria páreo para aquela coisa, tentei golpeá-la de todas as maneiras possíveis e ela permanecia imóvel, sequer revidava; estava quase desistindo quando vi que, nos olhos daquele jovem brilhavam gotas de esperança; ele queria deixar o passado no devido lugar e recomeçar, ele queria viver um novo dia; parecia viver o mesmo dia durante uns doze anos.

Vi que não estava naquela luta sozinho, e juntos, colocamos aquela coisa para correr com um simples olhar, pode até ser que ela volte, e por algum motivo, pode até ser que volte mais forte; mas, enquanto houver a esperança e essa vontade de mudar... Os olhos do garoto já expressão sinais da minha presença, e os primeiros bocejos já me da a sensação de dever cumprido; finalmente ele olha para a cama, desliga o computador e se deita para dormir talvez o seu melhor sono.